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Terça-feira, Maio 27, 2003
Uma mente cansada você percebe pelos olhos perdidos no ar;
Um coração cansado, pelo corpo estendido no chão.
Domingo, Maio 25, 2003
Tênues fronteiras
Eu vejo pessoas. Sempre as vi, mas de uns anos para cá, passei a ouví-las e dialogar com elas também. Vejo, ouço e falo com pessoas que não existem.
Espíritos, fantasmas, ou mentiras minhas mesmo, vejo, ouço e falo com mentiras.
O que me intriga, no entanto, é a certeza, a convicção de que elas não existem.
Acredito e tenho como conceito que a existência é a atmosfera em que se situa o real. O imaginário - ou irreal - se situaria em outra atmosfera, na da não-existência. Digo isso para efeito de raciocínio. Sendo isso aceito como fato certo, haverá de haver (que maravilha), nesse fato, uma fronteira, uma divisão, um limite, mesmo subjetivo, que venha demarcar (para nenhuma outra razão a não ser a da nossa compreensão) a distinção entre uma e outra atmosfera, para que assim possa ser feita a colocação nelas de todas as coisas que conhecemos. Onde está essa fronteira então?
A resposta estaria em nossos sentidos. O sentir prova o real. Porém, graças à atividade sapeca do nosso cérebro enquanto dormimos, experimentamos, todas as noites, um sentir íntimo, egoísta e delicioso, mas que é, reconhecidamente, irreal. Nos sonhos vemos, ouvimos, choramos, rimos. E o que é mais impressionante: nos sonhos profundos, daí excluindo os chamados "sonhos lúcidos", não temos consciência de que aquilo é irreal. Acreditamos, ou seja, vivemos (porque viver é acreditar, em última instância), uma irrealidade, sem saber que assim o estamos fazendo. Perdemos nossas vidas e tempos com os sonhos, guardamos lembranças dos sonhos...
Ah! As lembranças! Um ou outro diria que a prova de que o sonho é, propriamente dito, um sonho é que não nos lembramos dele cinco minutos depois de termos acordado, ou, em outro caso, temos recordações perdidas e confusas. Mas, por outro lado, nunca ouvi de comprovação que, enquanto sonhamos, temos lembranças límpidas e continuadas dos nossos não-sonhos.
Pessoalmente, entendo que a realidade está no compartilhamento. Não se sonha junto, então não se sente, enquanto se sonha, junto. Na realidade, você vê, vira para o lado, e pergunta: você viu? Você fala e alguém te escuta, você chora e alguém te ampara, ou te ignora, mas reage a você. Esse entendimento, no entanto, oferece-me a mais profunda inquietação diante do que se estende à minha frente. A concepção da realidade como uma recepção mútua de sensações (mesmo as não expressas) é a que mais simplifica o homem, por o distinguir apenas das pedras e coisas inanimadas, que não necessitam de mais nada para "viver". Por outro lado, é a que mais o individualiza, por ele ser, nesse modo, o único ser capaz de ter noção da sua existência e da importância do outro não apenas para a harmonia social, mas para algo anterior a isso, a harmonia existencial (algo como: eu existo na minha para que você exista na sua).
Passei um tempo acreditando na validade universal do meu conceito. Hoje, contrariamente, pensei em duas situações a que ele não se aplicaria, sendo assim, em todo o resto, inválido.
A primeira é a das minhas pessoas irreais. Pensei nos cultos de candomblé, ou do espiritismo, em que pessoas parecidas com as minhas são vistas, ouvidas e sentidas por mais de uma pessoa (real). Nesse caso há o compartilhamento, mas mesmo assim, têm-se perfeitamente ciência de que aquilo está em outra atmosfera, a da não-existência (ou então em um trânsito constante entre as duas).
A outra situação é uma civilização isolada onde, por alguma mutação genética, a maioria da população nascesse sem o paladar. A civilização correria normalmente, com exceção de alguns indivíduos que, de quando em quando, nasceriam com a suposta habilidade de reconhecer o tão irreal gosto das coisas. Provavelmente, eles seriam desacreditados ou, possivelmente, organizar-se-iam em grupos, quem sabe até de cunho religioso (o gosto seria visto como sintoma da presença divina e o primeiro a ter paladar como um messias). Nesses grupos, seria compartilhado um fato para eles concreto, mas que para todo o restante da sociedade seria irreal.
A realidade seria então relativa? Para mim, ela parece um grupo de elementos escolhidos por um consenso como ambiente para situarmos nossas vidas. Essa volubilidade assusta, por mais infantil que possa parecer.
Sexta-feira, Maio 23, 2003
Hoje, por tudo, corre-se.
A vida só é tida como viva quando é corrida. Por isso que a criança não tem a vida em sua plenitude, porque por mais que corra, não é mister que o faça.
E hoje, não se vive na diversão, vive-se na necessidade.
Corre-se para dormir, para acordar, para trabalhar, corre-se para poder correr mais, corre-se para mostrar que está correndo, e assim, vivendo.
O movimento tomou o mundo.
O movimento possibilitou ao homem, paradoxalmente, um reposicionamento na empreitada que é a reconstrução do tempo passado, pueril, lúdico. Ao correr, o homem busca a economia do tempo, para que não se perca mais um pouco da jovialidade que é tida como única vida. É a busca da estática pela dinâmica. Corre-se procurando um tempo livre, quando não é percebido que nessa procura o que o homem mais está é perdendo tempo.
O tempo em que não se corria não volta, porque há muito que se perdeu a grandeza de inteligência de não saber correr.
Quinta-feira, Maio 22, 2003
Corre a noite, corre rápido
E corre o menino, tropeçando
Passa a noite, porque roda a lua
E passa o menino, porque as noites passam.
Um dia, de noite, o menino corria
Até que parou, pensando,
meio indignado
Que se a lua não rodasse,
a noite não passaria,
e o seu eu-menino não passaria,
Pois seu tempo teria parado.
Por um dia que jazerá em noite
O menino agora anseia
Pois, hoje, a sua felicidade
É a noite parada,
cristalizando uma lua
morta, cheia.
Terça-feira, Maio 20, 2003
A razão é doença da alma: eis que lá está a alma, a alma calma, e a razão chega para fazê-la hesitar.
A hesitação é, pois, o sintoma da doença-razão. A diferença - pertubadora - entre o que se quer fazer, e o que é tido como o que se pode fazer.
Nos ínfimos momentos em que hesitamos antes de um beijo, de um tapa, das calças abaixadas, do prato devorado, nesses momentos, um modelo (que ninguém gosta, mas todos seguem) nos esmaga.
E isso tudo por causa da ética... A Ética - perdão - é mais forte que a política, que a moral, que a própria sociedade. Improfanável. soberana.
É por causa dela que não conhecemos o verdadeiro prazer: o beijo beijado sem olho, o tapa dado sem remorso, a calça rasgada com furor, o prato comido com o sabor nem sentido...
Por causa da ética (que provavelmente é uma velha em uma cadeira de balanço que range) que confundimos sentimentos com sensações. Essas, o gostinho do prazer. Aqueles, passaporte para o desfrute.
É por causa da ética e dessa porra de razão que passamos a vida toda achando que vivemos, quando na verdade perdemos tempo.
Entre o sal e sol...
Está no S do sal,
Está no S do rio... aquela curvinha de rio...
o hoje Canto do Mangue me prende com seu poder de S,
aquela volta do Potengi que meneia minha vida
segurando-me em saudades, lembranças, e o pôr-do-sol do Largo da Pátria
Está no S do sol,
Naquele calor de Sol...
calor que brilha, que acende, que faz chorar
Entre o S do sal, do mar vez azul, vez verde,
sobe a cidade, e se esconde uma natal, natal pequena, com letra minúscula,
naqueles paredões de dunas que a guardam,
em oferenda para o sol, que a corteja, e parece que brilha mais ainda
quando olha para ela.
Quinta-feira, Maio 08, 2003
De tragédias e receitas, o Prazer
Arme-se um palco! Que se encene a história de Cupido e de Psique. Só o Amor capaz de tornar a Alma feliz, e da união dos dois, a Volúpia! Não se admire! Ou você realmente achava que em mundos de euteamos, corações, vermelhos e luares não havia lugar para o Intenso Prazer? Sempre assim... Olhos só se abrem quando nos espantamos. Vê só: com as mesmas letras com as quais você goza a vida, deliciando-se e desfrutando de cada momento em seu viver; você goza imerso em prazer, na sua mais sexual conotação. Gozai com a vida!
Sim! Glorifico o prazer! Se não me envergonho? Mas, nem só de pão vive o homem, que o digam vitaminas, proteínas, sais e carboidratos. Pois, faça sua receita, sirva-se do banquete. E então? Medo de não virar um santo? Ora... Vai dizer que você usa o xampu enquanto se ensaboa? Já não te disseram que para as bandas de lá estão comprando água a altos preços?! Claro, você tem água, tem do seu pão, já deve ter tido um pouco de afeto também (mas por pouco que seja. Lembre da última vez que recebeu um beijo, levante a cabeça e diga [sem racionalidades, por favor] "Ah, já fui amado!")... Então: parabéns! Você tem uma vida apta a lhe proporcionar o mais genuíno prazer!
E agora? Usufrua! Não! Não se desespere, nada precisa ser impensado. Não conceda a qualquer um, ou a qualquer coisa, a honra de lhe proporcionar ou de partilhar o seu prazer. Torne-o único; faça-o especial. Não o ponha tão embaixo, onde os ratos podem comer do seu queijo: coloque-o na última prateleira, junto com seus santos. Enrole-o em papel velho, e o posicione ao fim de escadas desordenadas, pelas quais até você pode se perder, só para ter uma enorme felicidade ao abrir aquele embrulho (onde o conteúdo vale mais do que a pele, totalmente descartável) e provar da deliciosa sensação de achar que o esforço valeu a pena.
Se, por brincadeiras mais que antigas da vida, você já provou demais dessa sensação, tente aumentar as escadas. Inove, experimente, teste. Tente algo novo, deguste o sabor exótico de frutas desconhecidas. Mexa com gostos, cores, formas e acessórios. Monte um bolo diferente. Você não precisa ser igual a alguém pra ser o mais especial. Nunca esqueça: o seu prazer é único. Nunca alienei a imposição de limites à sua libido, nunca permita julgamentos. E a quem quiser te cercar, um conselho simples: mostre-lhes o quanto são intensas as suas sensações. Aproxime-se, teso, e lamba-lhes o rosto. E, em unção, esfregue o seu sêmen nos peitos. Que se cole assim sentimento a emoção.
E já profetizo: o homem só viverá em paz quando puder gozar com tudo e com todos sem pudores. Haverá um feriado para a celebração da Luxúria, e os pães nem serão mais tão importantes assim.
Tenho pena da criança que brinca sozinha com seus brinquedos, sendo aquela sua maior diversão e ocupação...
Assim como tenho pena do dia passado ligeiro, corrido, nem percebido.
A pena é do tempo, pois o tempo é de ter pena
Pena de mim por não ser a criança,
E pena de mim por não ter mais os dias
- tantos dias.
Quarta-feira, Maio 07, 2003
I want to walk with you
On a cloudy day
(...)
And I want to wake up with the rain
Falling on a tin roof
While I'm safe there in your arms
So all I ask is for you
(...)
"Putz...!"
I´m a creep, I´m a weirdo,
What the hell am I doing here?
O tempo corrói,
O tempo arranha,
E o Fim - mal supremo -,
Dá a ele seu caminho para pulsar
Porque tudo só existe verdadeiramente
Pelo cabo, tendo assim o seu tempo.
É assim que o momento
Só é momento por não mais existir
A felicidade só acontece
Por encontrar a dor a seu fim
E a infância deixa de ser um tempo vivido
Para ser um tempo esquecido.
Tempo de lascívia,
Prostituto e vulgar
Entrega-se a todos,
E com delicada perfídia,
Atua magistralmente,
Disseminando aquela dor
De quem sofre pelo tempo
(sobretudo vulgar).
O tempo é a sina do desesperado
É a causa maior de todo
E de qualquer sofrimento
O tempo é o maior tormento
De quem vê na morte o fim desejado
Porque junto com alívio,
O que mais ela oferece é o próprio tempo.
Quinta-feira, Maio 01, 2003
28/12/2002 13:44
O barulho pertuba.
Aproxima-se, abre espaço, aconchega-se, e folga.
O barulho barulha.
Martela, tamborila, uiva, silva.
O barulho incomoda.
Persiste, agride, não sente e não ouve.
E nem deixa ouvir.
O barulho é hoje o arquétipo da ignorância.
O barulho é o fim de uma paz inalienável, embora extingüível: a sua.
Barulho é símbolo de guerra, à serenidade, à tranqüilidade.
Esta, por mais que eu não consiga definir - para assim a ter -, posso titulá-la: o inverso do barulho.
Quis um dia Deus que só houvesse tum tum quando não houvesse toc toc.
26/12/2002 08:46
Quanto tempo dura uma vergonha?
Uma não sei, mas A Vergonha, essa safada, demora o bastante para existir.
Se, ao sentí-la, você a leva para almoçar, jantar, passar a tarde juntos, ela persiste - e por muito.
Se, no entanto, você dormir imediatamente, A Vergonha será exangüe, e padecerá junto com o primeiro canto de pássaro.
O que se percebe é que Ela só existe enquanto há alguém para nela pensar. Como, por provisão divina, o nosso sono é plácido e preocupado com coisas sobre-mundanas, deixamos nele a vergonha de lado, passando a ser apenas uma lembrança não querida.
A única coisa que cura realmente uma vergonha é o Lexotan.
25/12/2002 12:25
Pode ser muito divertido, mas amigo-secreto é uma farsa.
Não falo pela veracidade do segredo, mas pelos (re)encontros acompanhados de abraços e galanteios sugeridos pelo jogo com pessoas que, quando muito, tudo que você conhece sobre elas é o sobrenome - já que, devido à essência do momento, é igual ao seu (mas que coisa!).
Para mim, a grande diversão da brincadeira é ansiar impacientemente (o que é demonstrado pela euforia de todos ao participar) para que um embrulho caia em minhas mãos, pois o que eu dei (e no qual foi um bom dinheiro) já saiu delas há muito.
Deveria, pois, ser tudo reformulado.
As pessoas, cada qual, dariam presentes para si próprias. Em um dia marcado, todos abririam o agora-verdadeiro-galanteio, um na frente dos outros - sem correr o risco do fingimento de não saber para que serve e gostar mesmo assim, ou não saber mesmo três dias depois quem era teu "amigo" (e põe secreto nisso) -, exibiriam o conteúdo do auto-ofertado, e confraternizar-se-iam animadamente.
Mas só os que se conhecem, porque tem que acabar com essa mania que família nasceu para viver junta.
25/12/2002 06:23
É Natal.
Escolhi especificamente esta data para o início desse espaço.
Quando se pensa em natal, pensa-se em batidas de sino ou em vindas de natal?
Não concordo com isso de natal ser consumismo.
E não é, assim.
O consumo vem com o décimo (que também é terceiro), sagrado para muitos (tanto quanto o que nasce). A data não, a data vem da história.
Por vim da história, é cultural. Por assim ser, merece ser festejada.
O significado? Você não sabe para que serviam brincos antes de usá-los, ou como criou-se a rede, para poder descansar gostosamente depois do almoço.
Não é necessário saber daonde vem o natal, almocemo-lo apenas - com vinho, que isso também a cultura consagrou -, que o sono já vem vindo, vem vindo o sono, e eu quero ter algo melhor para dormir do que uma manjedoura.
Mudei o endereço do meu blog. Publico, a seguir, as últimas mensagens do blog anterior. Perdoem-me a esquizofrenia das datas...
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