persona non grata

Em imagem
Quinta-feira, Julho 24, 2003

Estavam ainda na mesa de jantar quando o conhecido barulho, vindo da sala contígua, despertou a atenção da família que comia em paz. Precipitaram-se. A menina, filha única do casal até os três anos de idade, olhou para o irmão que a tirou dessa condição há 15 anos. Houve um prenúncio de movimento dos dois.

Foram barrados, no entanto, pelo olhar pesado do pai, sentado costumeiramente na cabeceira, presidindo aquela reunião a que ninguém além dele e de sua mulher fazia questão de comparecer. O telefone tocou novamente.

Uma forte garfada da mãe no prato de porcelana, seguida do movimento quase violento que metia aquele filé aproveitado do almoço no fundo de sua boca, puxou a atenção de todos para a mesa. Pois que sabiam que era um absurdo distrair-se em um ato divino, que mesa é sagrada e dá-se muito para conseguir o que comer, e que a companhia de seu pai e sua mãe é muito mais importante do que qualquer amizade que venham a ter na vida. Os meninos não levavam muito a sério isso de amar sobretudo os pais, adorar não, que só se adora Cristo.

Nesse momento, o caçula repudiava com força qualquer idéia de família. Se sacrifícios necessitassem de ser feitos para poder namorar, ou falar com a namorada, nunca ouvira, porque todos de sua turma namoravam, mesmo tendo pais, se bem que o dele era um idiota, fissurado em mandar, que se danasse, iria embora de casa. Casaria, para ser pai, só para permitir que alguém atendesse, que Deus tinha algum amor, aquilo que já incomodava do barulho na sala ao lado.

A pródiga não! Essa largara as idéias subversivas há algum tempo. A vontade de retirar-se do jantar era unicamente porque havia marcado de falar com as colegas sobre um trabalho escolar. Teria que entregá-lo no dia seguinte, e já passava das nove. Se bem que não daria tempo e sua barriga já estava cheia.

Pensou nas idéias abandonadas. Bem que lera que cedo ou tarde a família como instituição acabar-se-ia, que entulho já servira em algum momento, mas depois havia de ser jogado fora. A visão daquela mulher à sua frente beliscando-lhe com os olhos e exigindo-lhe conduta mesmo em sua própria casa a irritou profundamente.

Que se indignassem, que batessem. Estavam prestes a morrer aqueles dois, ao contrário da flor da juventude. Por um instante, o ódio reinou na sagrada mesa. O pai, vendo o desamor dos filhos, percebeu, com um som já insuportável que estava mais para gritos ao seu ouvido, que sua casa se acabara. Bem que a mulher lhe havia prevenido de não comprar aquilo, que era uma praga, um telefone com fio, vermelho, ruína de seus valores.

Levantaram-se de súbito, ao mesmo tempo, as crianças. Desafiando qualquer imposição dos velhos sentados em expectativa, correm para a mesinha colocada no canto da sala de estar. O aparelho esperneava. De nada adiantaria continuar com a obediência. Decidiram, ali, enquanto corriam, cortar relações com eles - aquela ligação era realmente importante.

O pai olhou perplexo para a mulher, que se voltava, enquanto ele levantava-se já puxando o cinturão das calças. Aos empurrões, os jovens "lutaram" pelo fone, atendido com uma voz suave pelo futuro homem da casa: alô?

Sentindo a irmã esconder-se às suas costas, temendo o castigador que avançava em sua direção, o menino volta-se assustado, incrédulo.

Era engano.

Escrito por Dodico à(s) 3:51 AM - Manifeste-se a respeito:


Quarta-feira, Julho 23, 2003

Copacabana esconde muitas coisas.

Fala-se muito da beleza da praia: daquela curva de que Deus com certeza tanto gosta e se orgulha, e daquelas curvas - todas elas - de que os que têm alma e que já a viram tanto gostam e com elas se emocionam.

No entanto, da Copacabana cidade, mal se fala. Uma Copacabana caótica, Copa-Canudos moderna que, na falta de um Messias, guia-se ora em igrejas encaixadas sabe-se lá como no meio daqueles edifícios, ora em templos e casas de devoção que dividem o espaço de suas calçadas com os apostadores do Bicho, mendigos, prostitutas, loucos, e meninos em bicicletas levando mercadorias para lá e para cá.

Copacabana acorda todo dia meio que assustada, sem entender muito bem o que acontece consigo. Não entende muito bem o que fazem todos aqueles carros, o que faz todo aquele barulho, o que são todos aqueles prédios que, de longe ou de perto, de tão grudados parecem só um e, sobretudo, não entende o que é aquele burburinho que coça as suas corcovas, empestadas de casas (ou quase isso), quando não cortadas por imensas feridas que cheiram ao pior.

Essa Copa velhinha provavelmente se arrepende de ter visto como glamour quando o primeiro palácio rasgou-lhe as entranhas e ergueu-se de suas areias. Suas montanhas ainda tinham vista para o mar, e sobretudo o mar ainda avistava as suas montanhas. Não é que até esse namoro conseguiram acabar! A água foi obrigada a recuar, e a paisagem lhe foi negada.

Eram os guardiões da princesinha.

Hoje ela é velha, coitadinha, e não faz nada direito. Achando-se protegida, seus guardiões lhe tiram por vezes o Sol. O seu mar nunca foi tão de outro. Com dificuldade, recorda dos tempos em que tocavam para ela ao violão - hoje, o máximo que consegue ouvir são músicas de cabarés.

Hoje a Alteza perde-se numa Copacabana de luxúria, vícios, desordem. Ah! Tanto desrespeito a uma senhora de idade.

Escrito por Dodico à(s) 12:54 AM - Manifeste-se a respeito:


Terça-feira, Julho 22, 2003

Não sei o porquê de lançar-me à caneta
Se só consolam-me os teus afagos,
Se não sinto quando não em teus braços.

Não sei o porquê de amargurar a solidão
Se esta já está tão bem assentada
Pois de ti, nunca terei nada além de lembranças.

As palavras ditas ao acaso
Não sei o porquê de ouvi-las como sussurros
De ignorar a diferença do simples saudar para o amar.

E é a ignorância, disso eu sei,
Que me põe assim,
Feliz, por ver que a tristeza vem de ti
- algo tão belo, e que tomo assim por tão meu,
mesmo que só eu saiba.

Escrito por Dodico à(s) 4:57 AM - Manifeste-se a respeito:



Você ouve primeiro os tímidos passinhos. Um barulhinho diferente dentro de você, gostoso de ouvir.
Depois, sente sua temperatura. Aquele calor, mesmo fraquinho, mas que o faz esquentar e conforta como nenhum outro.
Aí percebe o seu peso. Você não sabe exatamente em que lado está "incomodando" mas se mantém naquela sensação de virar-se, revirar-se, inquietar-se, mal poder dormir.

É nesse momento que ela lhe entrega a lembrancinha que trouxe consigo: um sorriso leve, no canto da boca, e que não sai de lá por muito tempo.


A felicidade é tão boa quando chega sorrateira!

Escrito por Dodico à(s) 2:30 AM - Manifeste-se a respeito:


Sexta-feira, Julho 18, 2003

Devido ao comentário da Rafaela - que, confesso, deixou-me envergonhado - "corrigi" o meu perfil.
Por uns tempos,
Até que o fim da greve o repare.

Escrito por Dodico à(s) 9:00 PM - Manifeste-se a respeito:



O que não é o vazio!
Não saber o que fazer,
não saber p'ra que viver,
Nesses dias de estio...
Bom é quando está chovendo
O barulho da chuva no chão
Dá o ritmo para o meu coração
Sentir que não está morrendo.

Escrito por Dodico à(s) 5:09 PM - Manifeste-se a respeito:


Sexta-feira, Julho 11, 2003

*** Para ser lido antes que comentem a qualidade do poema a seguir (meu nome é pretensão!).***

Reparem na rigidez linda da forma.
Reparem na beleza da métrica.
Reparem na harmonia das rimas.

Ah! Vai-te para a estante, forma nojenta, soneto do diabo, que é lá onde devem ficar os clássicos!

*** Pronto! Eis aí um desabafo literário.***

Escrito por Dodico à(s) 3:40 AM - Manifeste-se a respeito:



Já é o tempo do fim da mocidade!

Enquanto me aguarda a senilidade,
Desfaço-me da futilidade:
Assumo com certa gravidade,
O fim da suposta liberdade.

Enxergar que os prazeres da cidade
Nada passam de pura falsidade
A mim convém com certa felicidade:
Há tempos percebo esse ar de improbidade.

Mas não está em todos a capacidade,
De se livrar da desonestidade:
Alguns vivem eternamente na mediocridade.

Ah! É uma delícia da maioridade:
Poder esquecer da sociedade,
Para tentar viver uma maturidade.

Escrito por Dodico à(s) 3:37 AM - Manifeste-se a respeito:


Quarta-feira, Julho 09, 2003

E eu achando que se emocionar com bobeira iria embora com a idade, e que, sem sentimento, eu estaria pronto para o mundo.
É, bom que eu seja imaturo ao ponto de poder me enganar.

Escrito por Dodico à(s) 1:14 AM - Manifeste-se a respeito:


Segunda-feira, Julho 07, 2003

Ser deixado é a pior coisa que existe.
Minto - pior é ser esquecido.
O esquecer, abandonar, é a demonstração nada afetuosa de que a pessoa não merece ao menos um "não", um "não te quero mais".
O abandono é pior do que o desprezo, esse pelo menos é um não gostar com consideração. Aquele, nem isso.

Escrito por Dodico à(s) 5:55 PM - Manifeste-se a respeito:


Quinta-feira, Julho 03, 2003

Bom galera, andei tendo problemas com o sistema de comentários (como a maioria das pessoas que o usam).
Acho que dentro de pouco tempo estará tudo funcionando de novo.

Escrito por Dodico à(s) 9:03 AM - Manifeste-se a respeito:


Terça-feira, Julho 01, 2003

Para sentir a vida
que, sim, lá fora o chama
ei! amigo, toma você um carro
Larga esse sarro
que dá na sua cama
corre para a rua
e vai, amigo, sentir o vento
Porque achar que é sofrimento
ficar deitado cantando p´ra lua
Há tempos saiu da moda
E se até seu pai quer esquecer
do passado, não há que se viver
nesse romantismo de se negar a foda
Para se pensar no amor.

Para sentir a vida
Que ao ócio aversa é
Parte, amigo, p´ra dar um pulo
onde antes você execrava, o xulo
Vai visitar um cabaré
Sentir o álcool regar o seu caminho
ouvir a canção brega o embalar
no ato belo que é se deitar
com a puta, p´ro amigo largar de ser sozinho
Nessas noites de junho
porque se a mente a poesia engrandece,
a jovialidade a boêmia enaltece
e vai o amigo decidir, a próprio punho,
Parar de vez de pensar no amor.

Escrito por Dodico à(s) 11:38 AM - Manifeste-se a respeito:


Fotolog da Júlia - Tamos com Raiva - Square Moon - Paradoxais - Nada de Novo no Front - Interlúdio

Teoria do Conceito - Fotolog da Marizinha - Kafkiano - Pequenas Misérias - Rodrigo Gurgel - Alô Houston?!