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Sábado, Agosto 16, 2003
Que subam nuvens, e que a névoa entonteça.
Que a fumaça inebrie, como o cheiro forte do metal
Que mundos desabem e que balas tilintem
Enquanto houver o caos, a razão está a salvo.
Que o vermelho inunde o meu rosto
E que a cor púrpura tinja teu peito
Que haja explosão, erupção
Enquanto houver dinâmica, o amor está a salvo.
A confusão, Perdido, é a glória da nossa vida
Sem ela, não há sentido,
Sem ela, não há direção
Pois se há um sentido desnecessário, vês que esse sentido é a visão
Se vives assim desorganizado,
Glorifica-te como esse soneto, perdido na confusão.
Terça-feira, Agosto 12, 2003
É, ontem fizeram de tudo: pintaram, melaram, jogaram pedras, baldes, potes, colocaram faixas, expuseram-me...
Mas não teve jeito: adorei a faculdade!
Quarta-feira, Agosto 06, 2003
Levanta o chapéu sobre o rosto, e sente o sol queimando-lhe a face. Olha para aquilo que queima, e arregala os olhos. Assim, pode sentir o calor lhe cegando, tornando sua visão vermelha e dolorida. Faz isso em sinal de penitência: culpa-se por ter nascido, por ter que viver cada mísero dia, por ter que passar por toda a dor, sofrimento e pena, mais uma vez.
Ameaça sair de casa. É sempre ruim essa necessidade de sair de casa. É mais ou menos a mesma coisa que acontece quando lhe dizem que precisa tomar banho. E toma o banho, livra-se da sujeira, deixando seu corpo e roupas prontos para mais um lote de poeira e lixo. Tira cuidadosamente cada folha de papelão e cada caixa que cobrem os seus pés, suas pernas imundas, e metade do seu tronco. Guarda tudo em um canto - deu trabalho conseguir ter um lar. Olha ao redor, agora sentado, à procura de algo. Uma mulher passa apressada e quase o atropela. Ele sente o cheiro dela, e fareja seu pensamento. Alguém havia de dar um jeito em todo aquele lixo que infesta a cidade. Tateia o chão, cuidando de achar o resto de pão que sobrara da sua refeição no dia anterior. Nada.
Sentia o impulso em levantar, para poder ir atrás de comida. Mas seu peito dói, sua cabeça vagueia por aí, e seu ânimo nem existe mais. Bobagem, dor é sentimento nobre e indigno de mendigos. Assim como os bichos, ele não dói, ele não sente. Não, ele nem vive, existe. Mas alguma coisa falta. Seu pão e alguma coisa faltam.
Em sua mente de mendigo, e em seu pensamento de mendigo, informações medíocres se batem e explodem a fim de acabar com aquela agonia. A lembrança da vida antiga e o incômodo daquele esquecimento repentino o fizeram refletir - vagabundamente, ao invés de estar trabalhando - sobre a sua situação, sobre a sua existência, sobre sua mendicância, e sobre seus sentimentos.
E era tão bom em matemática! Podia calcular quaisquer números. De dois e de três, fazia qualquer conta de mais. Passeava nas portas das padarias, somando e se lembrando do quão pobre era, em vista de todos aqueles preços. Em história também. Sabia tudo sobre qualquer lugar da cidade, gostava de conhecer coisa besta, coisa que demanda ócio, ócio impróprio para ele. Daria um ótimo político, sua mãe dizia. Sua mãe sempre sonhadora.
Afastou-se de tudo, da mãe e dos sonhos. Partiu então para uma vida no mar, onde podia banhar-se todo o tempo, onde sentia a água no pescoço a todo o tempo, e onde encharcava sua desilusão a qualquer hora.
Não foi a única vez na qual se afogou. Houve aquela em que se meteu com uma puta de cabaré e acabou adoecendo. Do corpo e da alma. Enquanto se coçava, se contorcia com a estranha falta persistente. Seu dia-a-dia ia se reduzindo, definhando, e tudo por vontade própria. O porquê ninguém sabia. Nem ele, jurava a si mesmo.
Hoje, longe daquele passado bizarro - mas não distante o suficiente para estar em paz - caminhou solitário, e como sempre, atrás do tal pedaço de pão. Passou por algumas quadras e teve uma certa visão. Olhou os detalhes, somou os personagens e aprendeu os eventos. Via-se ali, moço importante, segurando o maior número de pedaços de pão possível. Morava naquela casa, à beira do mar, um palacete de papelão. Na porta, esplendorosa, placas com dizeres legíveis para qualquer um, mendigos ou gente: "Aqui mora o Doutor Político João". Emocionou-se com a cena. Nunca mendigo algum comeria pão igual ao dele.
Terça-feira, Agosto 05, 2003
Desde pequeno fui de sentir aquele gosto na boca. Não posso dizer com certeza, mas nem me admiro se foi ainda no berço quando o metal enlameou minha língua pela primeira vez.
Cresci toda a minha mocidade com aquele sabor férreo e constante. Vez por outra, podia ser na hora do almoço ou mesmo no pré-sono, brindava-me com aquela visita. E, com ela, insinuavam-se pelo meu corpo imagens, sons - gritos ou apitos, fininhos no ser -, cheiros e até uma dor, pequena, quase não dor, mas jurava que sentia. Uma sinestesia maravilhosa de encanto, loucura, transcendência e dinâmica.
Encarava-o já normalmente. Éramos já um, o gosto e eu. Lado-a-lado, acostumei-me com sua presença, e até procurei tirar-lhe algo de agradável, afinal de contas, ninguém nesse mundo conhecia mais que eu aquele cinza saboroso.
Foi assim que passei a associá-lo com o meu estado de espírito. Desse dia em diante, o quarto dia do oitavo mês, descobri que só o metal me bastava, e que sem ele, nada saberia sobre mim mesmo.
***
Foi uma espera intensa. Dia após dia, a inquietude era certa. Até que chegou uma tal manhã de meio-dia. Eu ouvia-o já em meus sonhos, um zumbido, um barulho, rápido e crescente. Saí de casa afoito e entreguei-me ao primeiro vento que passou.
Corri, voei, e joguei-me. Ela passou rápido, mas eu sentia a aproximação a cada milésimo de segundo. Não vi meu salvador, nem percebi a cor dos seus óculos escuros. O calibre 38 chegou redondo, mas pontudo.
Estava de costas. É uma pena. Não pude nem vê-la.
E aquele gosto metálico. O tal gosto metálico, exatamente como eu havia imaginado.
Sexta-feira, Agosto 01, 2003
Ciranda da Bailarina
Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem
Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem?
Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem
O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho...
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem.
Procurando bem
Todo mundo tem...
(Edu Lobo e Chico Buarque/1982)
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