persona non grata

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Domingo, Maio 30, 2004

Verbo

Não suporto o meu gosto
E não gosto do que suporto
Não me vejo no que vejo
Nem mesmo recebo as flores
Que, em seu mundo, seus amores
Recebem quando o têm.

O que me oferta são só palavras
Mas, diabos! Palavras já tenho demais
E, até hoje, nenhuma delas dormiu comigo.

Escrito por Dodico à(s) 10:03 PM - Manifeste-se a respeito:


Quarta-feira, Maio 19, 2004

Amanheceu com vontade de correr. A praia se oferecia, plácida. Decidiu-se pela rua, pelo meio dela mesmo, com o asfalto a esfolar-lhe os pés e o barulho dos carros os ouvidos. Bom assim que não sentia inveja de tanta calma, além, é claro, de evitar o medo de se atirar ao mar, em desespero pela busca de paz.

Correu, correu, sem se preocupar nem com os sinais que, vai saber se foi por susto, pararam todos para vê-lo em seu exercício, se aquilo isso fosse. A rua uma hora daria em um fim, ou dele ou do mundo que, se tinha data para acabar, deveria ter um lugar de término também.

O suor escorria pela face, indo pingar na camisa grossa que vestiu para sufocar o coração pulsando. Sabia disso pelo sal molhando-lhe a boca, além da sensação de um estranho peso em suas costas, ombros e pernas. Seu corpo exauria-se, concluía, e uma hora tudo cairia no chão como uma massa disforme. Conseguiu ainda esboçar um leve sorriso no rosto. Mas cair, que era bom, nada caiu.

Por outro lado, o peso inventou de crescer enormemente, a ponto do homem não conseguir mover-se em velocidade normal, numa marcha lenta que chamava mais atenção do que a corrida ensandecida pela cidade.

Estranharia, se estivesse conseguindo pensar, mas a última coisa de que tem notícia é a de seu pé desprendendo-se do chão para nunca mais voltar. Os punhos fechados compunham com os cotovelos dobrados uma postura atlética. Atlética e estática.

O povo acudiu, com a rapidez de auxílio que só o povo tem. Primeiro chegaram puxando pelo braço, que, de duro, parecia pedra. Alguém lembrou de olhar o coração, sabe-se lá se ainda bate! Os que vinham não pelo acontecido, mas pelo tumulto, perguntavam-se quando a prefeitura havia colocado mais uma estátua na via pública, bem no meio dela, quem adivinha onde essa mania de estátuas vai parar.

Do meio da aglomeração, uma mulher precipitou-se. Aquele homem, homem não, o seu marido havia saído de casa sem nem tomar café, tão afoito, que parecia que uma hora colocaria as tripas para fora. Estava ali, imóvel, vamos ver se agora não atentava para os conselhos que a esposa dava.

Aproximou-se aflita, pelo homem e pelo sucesso de sua aparição pública (a rua parara, é verdade), chegou no ouvido do marido e, alisando o cabelo de seu homem, como boa e carinhosa mulher, chamou-o pelo nome.

Diante da falta de resposta, o que auscultava o coração sentencia: bater, não bate, mas morto não está, se não, não se segurava em pé. Uma movimentação, burburinho, alguma gargalhada. Todos se voltam para a esposa, como reagiria diante dos fatos, um marido-estátua, onde já se viu isso!

Enchendo o peito, tendo mesmo ajeitado o cabelo, lamentou, em tom elevado, valendo as costas do novo monumento como púlpito: coitado! E logo ele que odiava pombos!

Escrito por Dodico à(s) 12:33 PM - Manifeste-se a respeito:


Segunda-feira, Maio 17, 2004

O dia amanheceu frio, um frio insensível que me negava o sol. Ipanema deserta, largada, cobria-se com areia para que o mar gelado e violento não a maltratasse demais. Ventava muito e as ondas chegavam às alturas. Nesse dia frio, as areias decretarem-se mortas, dizem que pelo mar ter se mostrado tão vivo. Algo a ver com ciúmes.
A solidão reclamava atenção aqui dentro. Fazia tempo que não cuidava dela, havia de estar com fome ou chorando por carinho. A certa hora, quem quase chorou fui eu, mas não me arrisquei a sentir aquela agüinha escorrendo em minhas bochechas. Tremia só de ver aquele monstro bufando em minha frente.
O meu casaco, com sua ineficiência, esfregava no meu peito que havia algo em mim mais frio do que a Ipanema deserta.

Escrito por Dodico à(s) 2:51 AM - Manifeste-se a respeito:


Quarta-feira, Maio 12, 2004

Acordou um dia, pela manhã, e sentou-se, ainda meio atordoado, como pôde, na rede, para poder aproveitar como lhe fosse possível os primeiros momentos da vigília, exatamente aqueles em que não estamos vigilantes por completo. Eram os melhores momentos do dia. Nem em tanto sono - de forma que não tivesse consciência que não vivia -, e nem em tanto dia - de forma que soubesse, e por isso sofresse, que vivia.

A vida tornara-se um fardo desde que, desde que, desde que dormir e acordar era uma mera sequência, sequência troncha, por sinal, e daí que é necessário falar que, neste dia, ele acordou pela manhã. A voz de alguém, voz de um dono da voz, chamou-o pelo nome ao que, usando da boa educação que recebera, retribuiu com um sorriso amarelo não-escovado e cheirando à barata. Pronto, o atordoamento já era.

Levantou-se devagar, em direção ao banheiro. Debruçou-se na pia e jogou água nos olhos, de um tão desajeitado que as águas foram realmente aos olhos, e aquela conhecida sensação de secura, de quando os olhos estão molhados, incomodou-o. Olhou para o espelho para ver-se desgrenhado, que era assim que julgava serem as pessoas ao natural, e viu aquela mancha vermelha no seu rosto. Passou a mão devagarzinho sobre as bochechas para ver da onde vinha o inchaço.

Mas inchaço aquilo não era, o que pôde perceber quando, ao chegar-se ao espelho para observar melhor, notou que a mancha subira à sua testa. Estranhando, olhou para as próprias mãos, do jeito que se faz quando se estranha algo. A mancha estava lá, redondinha, no meio da sua palma. Julgando ser consequência dos olhos molhados e irritados com a grosseria, foi deitar, era bom que dormia mais e tinha um pretexto, pois que com olhos não se brinca que olhos são delicados e sensíveis.

Três quartos de hora mais tarde acordava novamente. Olhando para o teto, ainda deitado, distingüia ali, entre o ventilador e a parede branca, o vermelho insistente. Tapou um dos olhos com a mão, e o vermelho foi um pouquinho para o lado. Tapou o outro olho, e a mesma coisa (se bem que em lado inverso). Resolveu deixar para lá, essas coisas de estresse ninguém entende, porque não dá para viver assim, desse jeito, tão assim, nesse mundo - ruim! meu Deus.

Tomou o café e foi à rua, ele e a sua mancha. Foi até a padaria - o café de hoje tinha sido sem leite -, onde quase riu com a cara do padeiro pintadinha de vermelho. Quase, porque rir doía sua barriga, havia de ser a falta de costume. Dali para os próximos minutos, iria entreter-se em maquiar as pessoas nas ruas: virava para alguém e o borrão cobria-lhe a face, em outro a cabeça, em outro o tronco, em outro lá se ía o corpo todo, pois que o borrão crescia, a tal ponto dele pensar, não sem um tanto de ironia, que precisaria de um pára-brisas do jeito que a coisa ía.

Voltou para casa, pois já estava arriscando a cair no meio da calçada, sem saber por onde metia os pés naquele chão vermelho. De volta ao banheiro e ao espelho, procurou enxergar, entre um e outro buraco de sua tinta ótica, se algo em sua aparência mudara. Recuou um pouco ao descobrir que sim: não só "algo", mas estava ali, explícito, que toda a sua face ruborizara-se por completo, sem excluir o branco dos olhos e dos dentes.

Correu para o sofá que se estendia na sala, oferecendo-se para a reflexão. Não estava vermelho, burro de pensar isso, o seu olho é quem via errado, culpa sua, que olhos são delicados e sensíveis. Devia ter cuidado, sua mãe falava que esse negócio de não ir ao médico um dia causaria problema. Desesperou.

Ficaria cego, isso era fato, mas só por causa de uma irritaçãozinha - e por água? Não, a vida era ruim demais para piorar.
Começou então a sentir uma sensação estranha. Um tremor, a respiração pesada, rápida, e o diafragma contraindo-se fora do normal. Assustado, percebeu que um filete da mancha esmaecia, em um rosa sinuoso que descia pela visão. Sua mão molhou-se. Chorava.

A percepção daquele riozinho rosa intrigou-o. Então era tinta mesmo, como seria problema na vista se pôde ver, claramente, a mancha escorrendo pelo seu rosto? Depressa, correu para a cozinha, lavaria aquilo, aquela nuvem que não o permitia enxergar. Lavou uma, duas, três, lavou várias vezes, e nada. Sentou-se no chão, com as mãos na nuca, destruído pelo que estava acontecendo. Sabia-o, é claro, mas era difícil de aceitar.

Aquilo era vergonha, não uma vergonha, mas a Vergonha, a sua, e seu rosto e braço e perna e corpo e o mundo resolveram corar-se por completo, para estampar para qualquer um que aquilo não era vida de gente.

Escrito por Dodico à(s) 2:12 PM - Manifeste-se a respeito:


Sexta-feira, Maio 07, 2004

Chegara exausto de mais um dia cansativo na sua interminável (assim parece ser) jornada cotidiana. Desde que se mudara para aquela cidade, sua vida repetia-se fatidicamente a cada espaço de tempo suficientemente longo para que tivesse uma aflitiva sensação de que não passava de uma desprezível peça do atraente e complexo sistema a que estava atrelado, executando, submisso, ordens e comandos. Sua existência arruinara-se de tal forma, que cada passo traduzia-se numa acalentadora certeza que estava mais próximo do fim. Nesse dia, previsivelmente, abriu o portão de casa e sofridamente dirigiu-se para a porta. Por um momento, ocorreu à sua cabeça que seu corpo estava mais pesado do que o de costume; ou então, ocorreu ao seu corpo que sua cabeça insistia para que ele não se movimentasse. De fato, não andava, projetava uma perna para frente, vacilava, e arrastava o restante de sua massa.

Abriu a porta com dificuldade. Na verdade, abriu-a sem vontade. Não tinha pressa alguma, o tempo não lhe corria, e os minutos imperdoáveis de sua vida insistiam em demorar dez minutos para passarem. Entrou, acendeu as luzes e parou por um momento. Por que teria que repetir exatamente todos os dias os mesmos passos? Naquele dia, seria diferente.

Foi então à sua cozinha apertada, mas terrivelmente ampla para alguém que morava sozinho e cuja fome dependia somente da sua falta de vontade de comer. Procurou algo na geladeira, e diante da frustração de não achar nada além de um pacote de leite velho, resolveu impulsivamente beber leite. Derramou pacientemente dentro do copo descartável, por várias vezes reutilizado. Levou-o à boca, esforçando-se para não sentir o cheiro do gosto azedo que o leite (?) exalava (desceu dolorosamente, em meio às tentativas de expulsão por parte do seu corpo). Apertou os olhos, franziu a testa e respirou aliviado. Já havia se livrado da necessidade de alimentar-se naquele dia.

Passeou pela casa em direção ao quarto. Como era bonito o dia ali, entre aquelas paredes brancas, inofensivas, aconchegantes; longe das ensolaradas manhãs, alegres, mas hipócritas; gentis, mas inóspitas. Chegando ao quarto, tirou sua roupa e a jogou de lado sem zelo, apanhou um calção que se segurava no trinco da porta e o vestiu. Olhou-se no espelho, e não achou a sua imagem. Estranhou um pouco, mas não se admirou; há tempos que não olhava para si mesmo. Chegou um pouco mais perto, e novamente perdeu-se numa imensidão desconhecida, onde reflexos piscavam em frente a sua real personalidade. Apalpou o rosto, ao passo que sentía um corpo estranho tocar sua face. Virou-se, agora sim assustado. Procurando não pensar mais nisso, pegou um pedaço velho de jornal, sentou-se na velha e desgastada poltrona e começou a ler.

E leu sobre casas alugadas, vendidas, compradas; leu sobre carros, animais e objetos; leu ofertas de emprego; leu uma oferta de uma nova vida. Pelo espelho, via-se um pedaço de jornal aberto sobre uma poltrona. Quem chegasse mais perto, enxergaria gritos de "Procura-se"; e mais perto ainda, enxergaria um sussurro de "Alguém para me achar".

Escrito por Dodico à(s) 12:11 AM - Manifeste-se a respeito:


Quinta-feira, Maio 06, 2004

Simular a separação
Forjar uma oposição
É que, às vezes, anda tudo parado
Quando não tenho estado
Em estado de tristeza

Não que tenha apego ao fim
Mas algo pede, em mim
Um tanto de subversão
Livrar-me da situação
Pois a incomodar mais
Está o acômodo
E a chorar mais
Está a falta do choro.

Bom é quando tudo desaba
Acaba
Qualquer forma de chão em que tudo se apóie.
Quando a barriga esfria
E se fode a tranqüilidade
Pois a estabilidade
Mais destrói do que constrói

A separação não mais me preocupa
Dela se ocupa meu gesto de adeus

A oposição carrego em meu ombro
Pois distância nenhuma causa maior assombro
Do que a entre a realidade e meu corpo, que esse é só meu.

Escrito por Dodico à(s) 1:09 AM - Manifeste-se a respeito:


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