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Sexta-feira, Julho 30, 2004
Lembro-me do dia em que fizemos as chaves
Arrumei o seu espaço, falou em trazer o cachorro
Pude ouvir com clareza a vizinhança
Comemorar nossa felicidade -
Até eles aplaudiam.
Você conjecturava sobre onde caberia
E eu, cá dentro, ria, achando bobo que ainda não soubessse
Que não precisava de caber,
Pois estaria o tempo todo junto a mim.
O cachorro por aqui nunca latiu, é verdade,
Como o é que de mim menos se ouve risos do que choros.
Da chave pelo menos posso me recordar tranqüilo:
É com ela que a empregada me visita duas vezes por semana.
Sexta-feira, Julho 09, 2004
O último momento
Debrucei-me sobre a janela. Fiz isso por achar bonito, todos sabem que os poetas debruçam-se sobre as janelas e, hoje em dia, para se sentir alguma coisa, tem que ser poeta. Abri a persiana, juntei ao meu lado uma cadeira para quando o cansaço dessa meia noite me abatesse, e tirei a camisa, pronto para o meu sentir.
Ao alto, um céu rosa, porque o Rio de Janeiro tem um céu rosa à noite, quando o tempo não está tão limpo. À minha frente, meus vizinhos, os da outra rua, que nem sabem que eu existo, posto que, tanto para mim quanto para eles, o que existe nessa cidade são apartamentos, em que vez ou outra alguém transita por dentro deles cortando a luz (a única que tem coragem de se mostrar), quando tudo está escuro.
Em dado momento do meu momento sozinho e sensível, senti-me nu. De fora a camisa que se ajeitava junto com a poeira no canto do quarto, senti-me nu porque todos olharam para mim. Nunca me expus tanto ao mundo, posso jurar, justo quando me decidi por pensar só. Em cada janela iluminada, um rosto se afigurou, fitando-me com os olhos. Nos que as cortinas cerravam o vento, primeiro veio uma mão abrindo uma brecha, e depois o olhar invasivo. Envergonhei-me, e dei graças a Deus por ter posto a cadeira logo ao lado. As pernas bambas forçaram um apoio.
Olhei o céu, procurando por saber se ele também me encarava. O que vi foi um movimento, um tumulto, nuvens se achegando como para ver o que acontecia. O olhar foi interrompido por uma gota, no meio do meu rosto. E outra, após outra, gritando para que eu deixasse de ser besta, que sensibilidade medíocre não chama a atenção de nada, o que o povo estava ali para ver era a chuva que se mostrava nesses tempos estivais de inverno. Nuvens zombeteando.
A janela rangeu sobre meu pescoço. A estrutura velha de madeira não agüentava água, o que não era de todo o mal, servia como um aviso para que essa minha cabeça esquecida fechasse a janela quando o toró chegava. A janela cedia, anunciando-se como uma guilhotina. Cairia, independente de quem estivesse ali, metido fosse.
Mas não desisti tão fácil. Cidade prática essa, não é só a vida agitada que nos tira da espiritualidade - mesmo o clima anda às voltas para evitar essas tentativas exóticas de reflexões. Petulante, estendi mais ainda meu corpo sobre o parapeito. A chuva o lavou com vigor.
O mundo viu-me irredutível, e acho que isso fez diferença. As nuvens passaram, os olhares se fecharam, a janela se aquietou. Novamente só, depois da devassa. Nesse ínterim, fui mais de outros que de mim, e mesmo a morte mostrou as caras. Sentado aqui, no seco, percebo que os estranhos olhares não estavam ali para tratar de chuva coisa nenhuma, mas para aviltar-me, pois veja que insolência essa minha de procurar enxergar a vida, se mesmo a minha persiana verde tem algo de mais sensato que esse céu rosa do Rio de Janeiro.
Segunda-feira, Julho 05, 2004
Não te quero mais:
Já sei que não te quero.
Tentei pela calma, mas o desespero
Aninhou-se de um tal que a persistência não mais me apraz.
Te jurei a paciência,
Mas me ofereceste o desmazelo.
Por insistir em não querê-lo,
Gritaste-me um traidor.
O que mal sabias é que o meu amor
Pode até ser bobo, mas não gosta de apanhar.
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