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Quarta-feira, Agosto 25, 2004
Confissão
Uma vez, menino, sonhei com uma lagoa
A chuva choveu e por três dias escureceu
no alto; a terra assentou, a rua empoçou
embaixo.
Mainha chorava, a casa alagava -
eu tinha pena, rezava. O temporal se foi, só ficou uma garoa.
Eu era menino e não tinha um trampolim.
Quinta-feira, Agosto 12, 2004
Vivo desde o dia em que me abriram
aquela porta, e, por um não-passo
loquacíssimo, penetrei-te,
monasticamente, deixando lavrar-me,
nodoamente, em infito deleite.
Recordo o último instante
em que senti, em mim,
qualquer asseio, qualquer agrado
de não ti. A realidade do meu mundo
fez, do istmo, vento; e entreguei-me,
em laisser-aller, enfim,
a viver o lamoso claustral que é possuir
alguém para me ter.
E ali, então, fingindo saudade,
reclamei da pouquidade, forjei desapego.
Mas já não sou capaz:
acompanha-me em vida a felicidade,
e hoje tanto me atenho em sonhos ao abraço à lápide
Mais do que ao adeus no cais.
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