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Domingo, Outubro 31, 2004
Por tudo o que ouvia nas rádios e na boca pequena, que apesar de seu diminuto tamanho era a que mais tinha para falar, concluíra que o mais importante nessa semana em termo era o tempo, o céu, os astros, sei lá como se chama, Não, não era o eclipse, quem arrumou de dizer que lua escura era espetáculo se lua nova tinha todo mês. A preocupação era com as bandas de lá, com a terra de São Vicente, onde, e nisso via um sinal do fim dos tempos, inda mais perto de Finados, deram por exigir que, na terra da garoa, fizesse sol, não no Ibirapuera, mas no Anhangabaú. Tanto por tanto, se a nata carioca, para espairecer, tricotava da bunda do Gerald Thomas, os industrialitas gostavam de ir à praia para vislumbrar uma imagem com mais do que três tons cromáticos.
De qualquer forma, encarava como uma espécie de beleza, um retorno a um primitivismo ritualístico, astrológico, primordial, à outorga do poder de determinação e do controle da sorte aos Deuses, pois repara que se escolher entre a corneadora arrogante e o peixe morto, que, em estado de putrefação apresenta leves sinais de fascismo, não cabe a qualquer um, então quem sabe Guaraci seja capaz.
O momento é de oração.
Segunda-feira, Outubro 25, 2004
Queria-me ao lado, mas me pus na frente. A mesa de café apresentava-se junto com o cheiro de pão e de queijo, a sua companhia, e uma estranha dor no pescoço. Fui eu que inventei de baixar a cabeça, ou fui eu que inventei de olhar para o lado, enquanto você dormia. Enquanto você dormia, eu me encolhia, já julgando que se sua presença, além de tudo o mais, tirava-me o sono, a minha pelo menos furtava-lhe os sonhos. Despertávamos inquietos, de cá ainda teria que escovar os dentes, de lá ainda teria que visitar a porta. Tranqueia-a, agora. Admito que a campainha é um pouco insistente, mas me soa como um clamor que se confunde entre o que se viveu e o que se imaginou. A mesa nem mais posta está, antes assim, que, se do torpor da paixão, se livra a saudade, no gosto que fica, eu construo amizade.
Sexta-feira, Outubro 22, 2004
Até em sonhos?
É sufocante...
Quarta-feira, Outubro 13, 2004
Prendo-me alheio a mim
e me relego ao escuro.
As dores da vida, no meu expurgo,
tatibitateiam as músicas que colei em fuxico,
para me fazer chorar, bem sei,
que o que já foi, ao ir,
tirou-me as esperanças e me puxou para longe,
de tão alvoroçado.
Resto-me em desabrigo,
empanturrado com tantas curvas.
As mãos já tiveram da beleza, pelo menos,
porque o mais seria se a beleza tivesse tido daquelas mãos.
De tudo, porém,
derruba-me o que nem foi percebido,
o que nem foi permitido,
o que, de tão singelo, entrou,
como que escondido,
por entre os risos da minha retina.
Isso é meu,
até porque meus olhos fecharam-se, logo em seguida,
para que eu sentisse a felicidade.
Segunda-feira, Outubro 04, 2004
O anúncio do toque, esse me descompraz.
Não que me apeteça a frieza,
A distância misantrópica do contato em separado,
Do rosto beijado de lado,
da mão que anseia tanto por esquadrinhar, quanto por se lavar;
a fenda da cama deitada sem coberta, na fuga do cheiro insistente,
instigador de memórias ascosas -
obsedações do lamento.
Na verdade, desarranja-me a incompletude
Não a já feita, mas a que se insinua,
espreitando-se leviana entre os caprichos que a mim chegam:
Escarnece do meu arrepio,
inventando de alcunhar de inocência
o que eu chamo de desejo.
Assim, agarro-me à não-espera, disponho do vencilho,
Preencho com viço, a evitar a frustração.
Entende, pois, que se exijo o teu silêncio,
Não é porque me nego aos teus gemidos, mas é que insuporto o teu não.
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