persona non grata



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Sábado, Novembro 20, 2004

Levantava sobressaltado, ou saltado, propriamente, que o grito que irrompia o seu sonho, saído em um devaneio do seu subconsciente da boca que quase beijara, punha-o de pé num pronto, como é esperado em situações assim de emergência, para logo ver, sem tempo para decepções ou rancores, o despertador avisar-lhe, como previamente combinado, que ei, está na hora do banho para ir para a aula.
Voltava rotineiramente para a cama, por dez minutos, acabrunhado junto aos lençóis, como que triste pela despedida aos puxões, sem tempo para adeuses. Pensava que um amuamento ficaria bem, pois mesmo bocas soniais guardam ressentimentos.
O medo do chuveiro estava como meio para que não desbotassem as imagens, todas elas, daquele infinito tempo que se perdia entre os segundos da ansiedade. Decidira - que, a partir de então, mesmo à noite, firmava-se como perfeito senhor de seus atos por julgar que assim moveria os peões, ao menos, de seu destino - pela passividade, tanto por já haver percebido que até agora todo o feito carecia de certa valia, quanto por, paradoxalmente, haver se disposto a degustar a bóia que os peões haviam posto ao fogo.
Do tudo em suma, tinha-se que seu lábio, em continência, o que menos queria era o momento tornado em frustração, prendeu-se em um riso bobo, um tanto quanto casto, escarmentava-se; as mãos agarravam-se às colchas, nem pela impetuosidade de suas vontades, mas para conveniência dos tremores; e o peito, ah o peito argüia volúpia, pois que ficasse a arfar como caldeira que parecia.
Com um tanto de orgulho, acordou, de fato, feliz, pela vitória de sua convicção. A toalha já ia aos ombros, mas foi aí que lembrou do cheiro, e bambeou, do preparamento escapava-lhe o menos adventício, bem o que lhe havia entregue, aquele cheiro, bom cheiro, e imprecou-se, ao inferno a necessidade de em sonhos ter que respirar.


Escrito por George de Lucena à(s) 2:39 AM - Manifeste-se:
Segunda-feira, Novembro 01, 2004

A ebriedade subia-lhe a cabeça, que já dançava por si só a essas horas, e refletia sobre a vida, bonita como lhe disseram diversas vezes. O céu o inundava de azul e a vontade que tinha era de se afogar em tanto, um tanto que passava mas que lhe tomava com certa propriedade, como se pudesse ser de qualquer um, desde que o encontrasse descalço e exposto à friagem. Pensava que tudo bem o mar tinha vigor e se mostrava tal qual vivo sendo que nem vivo e morto lhe cabiam, que tudo bem o vento bocejava e ensinava que se não está para o mundo, o mundo o encontra onde quer, mas decidiu, e nesse momento se arrependeu, é na batida de pé que a terra treme, que está perdido, que o vento já passado se escondeu, que o mar que molhou já não molha, que a grama que viceja já se pisou, e que a vida está perdida. O que se espera ainda pode vir, mas as lembranças, por mais que se façam puras por todo o sempre, já nascem cunhadas de dor, daquela que aperreia e faz ensopar o lençol, pois tudo que é belo sem ser apreciado não o é, e vida apreciada é a vida que já se foi. Parou, então, não para acabar com a ordem, mas para se dispor à fealdade, só assim, só assim se acaba com os pensamentos que não engradecem o espírito, mas perturbam o coração.
É, concluía, é que a vida, e aí pausava, é tão bonita, mas está perdida, perdida.


Escrito por George de Lucena à(s) 7:08 AM - Manifeste-se: