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Sábado, Dezembro 18, 2004
O meu descanso era interrompido pelos gritos do velho. A sesta embalada pelo pé ao pé do alpendre cantigada pelos cochilos preguiçosos se perdia ao primeiro dos praguejos, como a perna folgada que se estende ao sofá e que se arruma rapidamente ao ouvir qualquer barulhinho com cheiro de repreensão.
Trabalhava às boiadadas do velho. O joelho às vezes se envergava, cantando junto com o arfado melodicamente que o resfolegar pedia fôlego, e nessas vezes o tanger se mostrava vigoroso, berrando o velho que responsabilidade é trabalhar ajoelhado se o joelho insiste em ir ao chão.
Comia ajustando-se ao compasso do velho. O pé tremia o assoalho se o relógio fora mandado para trocar a bateria, e eu tinha a certeza que se as coisas como a bateria não eram para sempre, o tempo do velho tinha algo de sempre, estivesse o sempre na constância ou na inexorabilidade. A madeira e a engrenagem ainda permitiam o sentar-se, mas à cabeceira estava o velho a lembrar que não abusasse, sem sobremesas ou repetições, o que arrematava, sabiamente, rouquidava, a glutonaria e o perdularismo.
Estava com o velho também ao caminhar, no reparo artificial aos passos que haviam de se mostrar graves e à postura que necessitava de consertos; ao cavaquear, na negação do fito dos olhos que me fazia de entregue, um promíscuo para o velho, ou que me fazia de curioso, um indecente; ao rir, um espalhafatão; ao brincar, um leviano; ao chorar, um lamecha; ao chegar, um enxerido; ao partir, um egoísta.
Era em sonho, assim, que podia sonhar com a liberdade, que, a despeito do patriarcado, mostrava-se em uma bela moça de vinte anos, o que em nada denota virilidade, mas um suspiro aliviado da distância da velharia. Corria nua, helenisticamente, ao som de uma harmônica e alta canção, mais alta que a cadeira de balanço que rangia, eu bem sentia, logo ao lado.
Sexta-feira, Dezembro 03, 2004
Desculpem-me a fuga...
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Perdi em não poucas vezes. Voltava-me para mim, como se por um acaso fosse dotado de uma emoção que tomava e que dobrava você e as coisas ao nosso, meu e da emoção, sabor. Perdi mais por demais procurar do que por, de fato, não dispor. A primeira veio da boca que em exagerado se abria; a segunda, da confiança que se declarava despropositadamente; a terceira, da insistência infinda, já de um desesperado, não mais de um tolo envolto em considerações. A quarta, fatalmente, veio de dentro.
Achei-a por acaso, escondida em um maço de cigarro apertadinha, meio que fazendo querença da unha para tornar-se considerável, de ponta-cabeça, jeito que arranjou de me sacudir as idéias. Guardei-a para depois, usando da protelação capa para o medo do inevitável.
Saiu decidida, atirando-se por si só, e nisso minha mais íntima vontade apelava para que não fosse, caindo à calçada, como que desajeitada, como que envergonhada, como que temerosa pela mais-dor que sua queda causava a quem a assistia do que a quem, realmente, a sentia - a perda. Pisei-a com certo ânimo, não que desejasse sepultá-la, mas o seu remorso simplesmente não permitia que eu conseguisse viver.
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