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Terça-feira, Maio 09, 2006
Pode ser que a cabeça ande mal, ou de verdade sejam as mais idas horas que nos separam que me impelem ao esquecimento (bem devagar, para que eu não perceba que esqueço e que, pouco a pouco, a saudade é só mais um não-mais pálido e apagado).
Inda assim, te descubro no último adeus.
Teus braços pediam mais que um abraço e eu, desastrado e envergonhado, revelava sobretudo a mim que nada tinha a oferecer, nem um choro, nem um andar vacilante, nem uma esperançosa olhada para trás, quando o teu pedido já era vento que voava longe junto com o teu perfume.
Não tinha os meus poemas, muito menos meus pretensiosos ares de poeta, pois a palavra a ser oferecida, de muito educada, retraía-se, aviltada diante da mentira que eu ensaiava em meu peito.
A ti não dediquei cortejos, nem arpejos, nem o sobejo do beijo que eu, soberbo, guardava em um bolso que não seria remexido dali a pelo menos alguns bons meses, quando esse texto tomaria forma. Pensando bem, a mim faltou a gentileza que tantas vezes vi transbordar em teu sorriso, quando ele se movia junto com a barra do teu vestido. Mas nada disso foi por mal, de fora o sopro do beijo que eu insistia em fazer de amuleto e que era, de fato, uma fotografia que se queimou antes de ser revelada.
Hoje, ao lembrar da promessa que te fiz e que te falei com os meus dedos entoando um tchau mudo, vejo que mais não poderia ter dado, e com mais graça não poderia ter agido, e com mais sentimento não poderia ter me despedido, pois que lá, naquele adeus, eu não estava, por encolhido e guardado em um canto mais canto que o meu bolso, ou que o meu peito, de certo a esperar um momento apropriado para também tomar forma. Escrevo a ti, então, não como um miserável que esmola a comida que não faz por merecer, mas como um desesperado que se quer de volta e que não se pode ter, desde aquele adeus.
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