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| Segunda-feira, Janeiro 29, 2007
Aquele sim tinha nome. Nome, sobrenome e uma necessidade sufocante de fugir de casa, necessidade que crescia no tanto que uma modorra braba, daquelas de deixar o cabelo cheirando a mofo, atacava-lhe os pés.
Passava pouco das três. Augusto Mancini saíra de casa do jeito mesmo que estava, gafo e todo acabrunhado, dizendo que ia fumar cigarro, embora se tenha por certo que o que queria mesmo era auto-impingir-se um feitio noir, mesmo às três da tarde e mesmo numa cidade tão cinza e sem contraste quanto São Paulo.
Caminhara pouco, não mais do que vinte metros, quando constatou que vivenciava um daqueles momentos da vida a que se pode realmente chamar de momento. Imediatamente, Augusto tratou de tentar resgatar todas as suas reflexões pensadas ou ouvidas que, de alguma forma, versavam sobre a plasticidade da realidade, a insustentabilidade da existência e a transitoriedade do sensível.
Tentou, mas o tempo fora insuficiente, como precisamente ocorre com todo o mais.
A lotação, que passava à rua e cenariava para o seu filosofar vespertino, sumiu sem fazer qualquer alarde, do mesmo jeito que fazia quando, já cheia, mudava de rota para evitar o caos urbano das seis. A mesma coisa se deu com uma senhorinha, simpática até, que por aquelas bandas passeava (isso é tudo o que dela se soube).
Já Augusto Mancini, aquele sim tinha nome e sobrenome que não permitiriam o seu sumiço. Augusto havia caminhado não mais do que vinte metros quando a rua abriu-se à sua frente, de certa forma convidativa, insinuando que, ao fundo, havia mais segredos e mais mistérios do que o que aquela concretada toda permitia antever. Um convite para poucos.
No instante em que penetrava os intestinos da cidade barulhenta, inevitavelmente projetava a sua memória para idos tempos onde se podia, com solidez, brincar despreocupado à margem do rio, lembrança caduca já pelo rio, que dirá de suas várzeas firmes.
E depois?
Depois mais nada. Mesmo em São Paulo, o nada faz barulho de silêncio.
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| Quinta-feira, Janeiro 11, 2007
Certa noite, uma prostituta do Lido chora; chora de jeito que nem é tanto choro em vão: canta o pranto daquela puta que, de seu, só o choro pode ser canção.
A puta sonha; sonha de jeito que sua mão frouxa leva o cigarro ao chão: tanto do seu sonho corre alto, mas seu cigarro, queimando leso, diz-lhe que não!
Certa noite, essa prostituta do Lido, horrorizada, deu para gritar, e só gritar.
Gritava, mas era uma coisa que ninguém acodia, que ninguém se ajuntava, que ninguém virava a cara nem muito menos comentava o seu horror. Vai ver achava-se que, por esses mercados, mesmo a compaixão tem de ser cobrada.
Uma criança até brincava na praça, e o cigarro da puta, naquela noite, consumia, indolentemente, mais um trago de ilusão.
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