| Terça-feira, Maio 08, 2007
Esta noite, quando eu já dormitava, ele me assaltou.
Chegara madrugada alta:
"Calça os teus sapatos que hoje é dia de festa!
Quero a goma mais lustrosa no cabelo e
O perfume mais doce no tecido.
Quero a pura alegria de janeiro"
Sonolento, eu chorava, surpreendido.
"Não falei que voltaria quando me tivesse por sumido?"
Entreguei-lhe tudo o que tinha,
Com exceção dos sapatos, da goma e do perfume.
A cada carta, a cada fotografia, a cada lembrança dobrada, eu lia em seus olhos o regozijo soberbo e silencioso de quem se descobria importante - dir-se-ia indispensável.
"Tenho cá comigo teus uniformes,
Tenho teus livros e teus amores.
Tenho o tempo frouxo e o brincar bobo que não marca hora pra acabar"
E eu me via mais nele que em mim,
Desesperado por não achar a alegria,
Perdida que estava no meio do mofo e da poeira que o tanto mexer nas gavetas levantou.
Partiu levando-me o muito que não deixou.
Tentei agarrar-lhe as pernas, mas se esquivara com o primeiro toque para o recreio.
Restei sem minha brisa (e sem a sesta preguiçosa), sem meus cachorros, sem minha acácia velha que descascava a cada subida...
De que adiantava tanto alvoroço?
Da festa maior eu já não mais posso participar.
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