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| Sexta-feira, Outubro 10, 2008
Era só gritarem o almoço que eles apareciam saracoteando cozinha adentro. Vinham da terra onde quer que a encontrassem, na rua, no quintal, no jardim já destruído pelo chafurdo cotidiano das manhãs de janeiro. Chegavam sonsos aqueles olhinhos, trazendo consigo a beleza que não admite reprimendas e que tudo se permite.
Tanta meninice me emocionava. Na verdade, nunca fui tão bobo em minha vida, ora invocado pelo abraço que a danada rejeitava só para me passar raiva, ora encantado pela bagunça que aqueles olhos, nuinhos, faziam no peito da gente.
Um dia parece que saíram para um passeio à tarde que demorou a mais porque o dia inventou de escurecer mais cedo.
Quando janeiro acabou, eles já não eram mais meus.
Até hoje os espero, remordido. Embriagado com a saudade e com a lembrança do tempo bom, nem percebi quando aqueles olhos manhosos levaram a minha menina buliçosa que nunca mais voltou.
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| Sexta-feira, Outubro 03, 2008
Inda ontem eu chorei, lembra?
Rabiscava em linhas tenras o amor que iria vir.
Ali, eu cismava de tão sentir o que então era encanto,
E rezava, que é para tudo durar só mais um pouco.
Hoje eu choro a saudade perdida.
Perdida das horas de conversa escondida embaixo do lençol para o sono não ver,
Perdida do mundo que você me soletrou pacientemente para eu não esquecer,
Perdida do menino que cresceu e por achar que não cabia mais em si, também se perdeu.
Fui só eu que escolhi.
Haverá como se tentar de novo?
Temos tanto por fazer, a casa para arrumar, a pia para consertar, tanto corpo para ceder.
Inda ontem eu sonhava, disso eu lembro.
E do mais? Será que já esqueci?
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